Em 20 de setembro de 2015, às 23:08 da noite, ela chorou
porque teve medo do mundo.
Ela não teve medo das
sombras no escuro aquela noite. O que lhe infestava o coração era muito mais
forte do que os medos de infância.
Algo crescia.
Eram asas. Lindas asas de Ícaro rasgavam suas costas,
forçando caminho pela carne nova e tratada com sabonete antiacne, asas que já
cresciam silenciosamente por sob a carne havia muito tempo, apenas esperando o
momento certo para emergir.
Aquilo doía mais do que ela imaginara, e ela não podia usar
qualquer palavra código para fazer com que a dor parasse daquela vez.
Pensou nas desgraças do mundo, no que ele tinha a lhe
oferecer e o que ela tinha a oferecer a ele, e se isso funcionaria. Do jeito
que as coisas andavam (a julgar pelas notas de matemática, biologia, português,
geografia e historia), acreditou que não seria feliz. De jeito nenhum, não é
assim que o mundo funciona!
Lindas asas de Ícaro, porém muito fracas para as tempestades
fora de seu jardim encantado. Asas de cera derretem quando muito próximas ao
Sol. Grandes asas que de nada serviriam enquanto ainda houvesse raízes a fixá-la
no chão.
Ah, as raízes. Raízes que lhe prendiam ao solo, se
enroscavam em suas pernas e perfuravam-lhe o coração. Raízes grossas, quentes e
aconchegantes, com textura de travesseiro e cheiro de livro novo. Elas se
tornavam ainda mais convidativas com a dor do amadurecimento queimando em suas
costas e seu peito.
Ela amava essas raízes e cuidava
delas com muito carinho. Foram de grande ajuda para que crescesse e conseguisse
enxergar o mundo mas, repentinamente, já
estava grande demais, como Alice
no País das Maravilhas, e o manto de madeira já não lhe servia. E ela sabia,
havia algumas semanas, que era preciso cortá-las (escondeu isso de si mesma, e
teria escondido até se tornar impossível conviver com isso se não tivesse
amadurecido, graças à realidade imposta pelas asas).
E as cortou. Foi rápido, e ela sabia que nunca se livraria
delas por completo, e isso a tranquilizava. As raízes são impossíveis de se
extrair do cérebro, e florescem na memória.
E no coração. Ela se recusara a retirar as farpas que lhe
impregnavam o peito e, num momento de
leveza e tranquilidade, não pensou que arderiam mais tarde, impedindo que se
concentrasse no crescimento de suas belas asas e atrasando o processo.
“Você é muito corajosa”, foi o que sua mãe lhe disse. E era
nisso que ela pensava, cada vez que cogitava voltar atrás e voltar à terra,
como a menor das sementes, e dormir por tempo indefinido. Mas seu corpo queimava,
ardia, e ela não sabia mais porque raios quis cortar aquelas raízes.
Em 26 de setembro de 2015, as 23:50, ela chorou de novo, procurando
suas raízes no escuro, as asas crescendo muito lentamente em suas costas.
Ela não acendeu a luz do abajur antes de apagar a luz do
quarto, e quis dormir com os pés descobertos. O que lhe infestava o coração era
muito mais forte que os hábitos de sempre.
Chorou até ficar cansada. O impacto da poda e o calor
acabaram por fazer com que se alimentasse pouquíssimo no dia. Adormeceu
sonhando ter belas asas de anjo - não mais de Ícaro - feitas por suas próprias
mãos, e voava com elas até os jardins de sua memória; lá reencontrava as raízes
primaveris de sua adolescência acalentando-a como velhas amigas.
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