domingo, 27 de setembro de 2015

Batalha - Um pensamento pensado por Luna

Em 20 de setembro de 2015, às 23:08 da noite, ela chorou porque teve medo do mundo.
 Ela não teve medo das sombras no escuro aquela noite. O que lhe infestava o coração era muito mais forte do que os medos de infância.
Algo crescia.

Eram asas. Lindas asas de Ícaro rasgavam suas costas, forçando caminho pela carne nova e tratada com sabonete antiacne, asas que já cresciam silenciosamente por sob a carne havia muito tempo, apenas esperando o momento certo para emergir.
Aquilo doía mais do que ela imaginara, e ela não podia usar qualquer palavra código para fazer com que a dor parasse daquela vez.
Pensou nas desgraças do mundo, no que ele tinha a lhe oferecer e o que ela tinha a oferecer a ele, e se isso funcionaria. Do jeito que as coisas andavam (a julgar pelas notas de matemática, biologia, português, geografia e historia), acreditou que não seria feliz. De jeito nenhum, não é assim que o mundo funciona!
Lindas asas de Ícaro, porém muito fracas para as tempestades fora de seu jardim encantado. Asas de cera derretem quando muito próximas ao Sol. Grandes asas que de nada serviriam enquanto ainda houvesse raízes a fixá-la no chão.
Ah, as raízes. Raízes que lhe prendiam ao solo, se enroscavam em suas pernas e perfuravam-lhe o coração. Raízes grossas, quentes e aconchegantes, com textura de travesseiro e cheiro de livro novo. Elas se tornavam ainda mais convidativas com a dor do amadurecimento queimando em suas costas e seu peito.
Ela amava essas raízes e cuidava delas com muito carinho. Foram de grande ajuda para que crescesse e conseguisse enxergar o mundo mas, repentinamente, já  estava grande demais, como  Alice no País das Maravilhas, e o manto de madeira já não lhe servia. E ela sabia, havia algumas semanas, que era preciso cortá-las (escondeu isso de si mesma, e teria escondido até se tornar impossível conviver com isso se não tivesse amadurecido, graças à realidade imposta pelas asas).
E as cortou. Foi rápido, e ela sabia que nunca se livraria delas por completo, e isso a tranquilizava. As raízes são impossíveis de se extrair do cérebro, e florescem na memória.
E no coração. Ela se recusara a retirar as farpas que lhe impregnavam o peito e,  num momento de leveza e tranquilidade, não pensou que arderiam mais tarde, impedindo que se concentrasse no crescimento de suas belas asas e atrasando o processo.
“Você é muito corajosa”, foi o que sua mãe lhe disse. E era nisso que ela pensava, cada vez que cogitava voltar atrás e voltar à terra, como a menor das sementes, e dormir por tempo indefinido. Mas seu corpo queimava, ardia, e ela não sabia mais porque raios quis cortar aquelas raízes.
Em 26 de setembro de 2015, as 23:50, ela chorou de novo, procurando suas raízes no escuro, as asas crescendo muito lentamente em suas costas.
Ela não acendeu a luz do abajur antes de apagar a luz do quarto, e quis dormir com os pés descobertos. O que lhe infestava o coração era muito mais forte que os hábitos de sempre.
Chorou até ficar cansada. O impacto da poda e o calor acabaram por fazer com que se alimentasse pouquíssimo no dia. Adormeceu sonhando ter belas asas de anjo - não mais de Ícaro - feitas por suas próprias mãos, e voava com elas até os jardins de sua memória; lá reencontrava as raízes primaveris de sua adolescência acalentando-a como velhas amigas.


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